...No princípio era o Verbo...

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Reflexão sobre políticas públicas e a ocupação das encostas no Rio de Janeiro

Primeiro despejam os cortiços em respeito ao "visual" da cidade. Sem qualquer amparo, os ex-corticeiros, moradores cuja vida foi violentamente descoberta pela colcha quentinha do capitalismo, uma mão na frente e a mente nas contas, foram arremessados pras encostas. Foram no mato lutar contra a inclinação do terreno, o acesso precário à água, contra os mosquitos das florestas, contra a própria floresta - visual previlegiado da Zona da Festa. E o agente dessa migração não foi o Estado, o agente dessa migração foi a omissão dos direitos constitucionais fundamentais e INALIENÁVEIS (o direito a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da LIVRE INICIATIVA, o direito à moradia; a Garantia Fundamental de tratamento humanizado e a Garantia de que o cidadão não terá seus valores degradados por quaisquer forças, insitucionais ou não). O negócio é que esse papo de direito constitucional não é pra pé rapado, pé rapado tem que subsistir e subtrabalhar, para sua RAÇA tecer eternamente os farrapos desse país, e de todos os países do Globo Terrestre. O Estado não é para aqueles que dependem de sua bondade, de seu esforço de caridade, atos paternais de uma Constituição laica.
Os políticos do executivo, os Ministros, os Juízes e Senadores, deputados, fingem não ver para não sujar de sangue o nome da diplomacia, pra não enfiar o dedo até as membranas na questão mais dolorida do povo. Este último se espreme entre as paredes móveis da especulação imobiliária e do aumento do preço do pão. Depois dizem que ninguém os obrigou a morar em encosta, quando tem desabamento, mas esquecem das iniciativas de Pereira Passos que hoje tem até nome de Rua.
E as favelas crescem a olhos vistos até que a visão de sua miséria transborde pelas lacunas que dão sentido à peneira. Degenerados como são, e por serem quem são, sujam a paisagem mais uma vez. E toma-lhe Lacerda pro povo não instruído! Demolidas outras favelas, a vida do país pode seguir sem fugir com os olhos.
Em lugares agora diferentes, continuam nascendo e crescendo. As favelas são as crianças cheias de teima das grandes cidades, sobrevivem a despeito do estômago dolorido, e dos punhos cerrados. Assim como a própria cultura, e como todos os outros conglomerados vivos, materiais ou abstratos, teóricos, "ajuntados" pela nossa história de luta, são uma comunidade inteeeira de crianças sobreviventes e desdentadas...
Que tipo de dinâmica social sempre volta a ocorrer sem que ela seja do interesse de ninguém? Uma dinâmica que não provém das necessidades de algum estrato da sociedade? Simples, nenhum. Tudo acontece por condescendência, e de acordo com a excêntrica hierarquia de prioridades, na interminável lista de Deveres de Casa dos agentes da política nacional.
Mas a proposta, meus amigos que é CLARO, já sabem de tudo isso, nunca foi alterar as coisas. Muito menos analizá-las para fins críticos e fins por-fim interventores. Pensar criticamente a realidade total da sociedade jamais foi o objetivo dos estrategistas. E é por isso que me entristece muito ouvir dos meus supostamente-instruídos colegas de faculdade que o Estado são os braços que mantém tudo funcionando. Quem mantém "TUDO FUNCIONANDO" são as populações marginalizadas, que só conseguem emprego em obras públicas, em fábricas de absorvente, vivem do plantio monocultural de mandioca, os funcionários públicos, garis... São essas populações as que sustentam o sistema que o mundo inteiro "deve comprar", e não os filhos, e sobrinhos e a esposa (às vezes até a amante!) dos representantes do povo. Esse Grande Irmão, o mais velho e mais egoísta, opera através da concepção fria de que alguém tem que ganhar, enquanto outros se massacram para simplesmente participar da grande corrida.
Se esse é o melhor jeito de viver que meus colegas do Ensino Superior conseguem imaginar, acho que prefiro não participar NEM EM ABSTRAÇÃO desse ideário idólatra e cego que habitam suas mentes.

Um continente onde "...Parlapatões são Estadistas, e demagogos são Salvadores da Pátria", de acordo com Roberto daMatta no Jornal O Globo.


http://www.youtube.com/watch?v=ztYJXnT_spM&feature=related
George Carlin sobre os campos de golfe e os sem-teto dos Estados Unidos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

alfabetizando

solidão é quando falta gente dentro da gente
auditório vazio de mim
é quando o ato acontece com o personagem ausente
e os sons ecoam refratários e reincidentes
no oco do coco

a auto-consciência
é o instante de punhos cerrados
quando perde sentido o soco

domingo, 3 de janeiro de 2010

Biocentrismo

O nascimento e a morte, a ascendência e a decadência, não são símbolos da finitude e do perecimento, são ao contrário, a expressão mais pura de como se mantém a eternidade.
Quando pensamos eternidade pensamos algo perene e constante, inabalável, imóvel, algo que sempre permanece. no entanto, muito nos confunde pensar que o fato de ser perene se sustenta através da eterna renovação.
Concebemos a morte como fim, pois temos como único ponto de vista o fim da vida de um indivíduo, não exnergamo-lo dentro do contexto ao qual serve (e do qual é servido); custamos a perceber que a morte de um ser, serve à vida de um organismo maior, só percebemos os ciclos da terra e da carne sem temor, quando estendemos nosso olhar aos demais seres deste planeta. Somente entendemos a Eternidade quando vemos os frutos das árvores caírem no solo, "mortos" (perfeitos para a nossa alimentação e desenvolvimento e a de muitos outros), e com a sua morte o solo ser fertilizado, e mais uma vez coroado com sementes e novas possibilidades de vida. Vem um inseto e poleniza uma flor, que fará nascerem outras flores; vem um pássaro, come a fruta da mesma árvores e deixa cair as sementes ao longo do seu caminho; esse pássaro morre na mandíbula de um lobo, e esse lobo terá dentro de si o que precisa para viver - assim são todos os animais, sabem o que precisam, sabem se render quando vêem que isso é necessário, e jamais vacilam em sua profunda conexão com a Terra.

A Eternidade só é compreensível sob um ponto de vista cosmológico, nunca sob um olhar individualista, ou especista.

sábado, 26 de dezembro de 2009

ipanema

: um monte de homem crescido tentando ser macho
e um velho
magro, abatido
dormindo em cima de um capacho.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

fim do ano e reclamações metafísicas

o fim do ano parece abrir um portal pra que entre todo tipo de arrependimento fútil. às vezes nem tem a ver com suas "escolhas erradas", ou as vezes tem sim a ver, mas eu sempre penso que se arrepender por essas coisas é quase sempre bobagem... pena também que pensar que é bobagem não faz o sentimento parecer mais tosco, ele é bem sólido na verdade.
queria ter nascido numa familia maior, com gente da minha idade. todas as festas estive rodeada de adultos, e observando-os e interagindo com eles em grande medida. algumas horas os achava mais tristemente previsíveis do que os acho hoje! outras vezes, simplesmente não entendia suas dissimulações, e a aparência de importância que revestiam alguns assuntos - do tipo, quando perguntamos aos nossos pais algo que eles considerem chocante pra ouvir de uma criança, eles se reservam se fecham e pensam pensam pensam muito pra dar uma resposta boba como quando você for mais velha eu te explico...
desde criança também vejo os visistantes, amigos do meu pai, de minha mãe, das seguintes namoradas e namorados dos dois, meus próprios coleguinhas, indo e vindo, e ninguém permanecendo, ninguém permanece.
sempre estive imersa no meu mundo de fantasias e de grandes histórias sobre coisas pequeninas, sobre uma tal semente, ou uma flor engraçada, as longas conversas com o Pequeno Polegar... sempre carreguei somente a mim mesma em todos os lugares, sempre tive a certeza melancólica que quase todos os momentos cruciais de nossa vida sempre estaremos sozinhos. mas voltando aos desejos bobos... queria não ter nascido tão cruamente racional e tão inumanamente sensível, e que tenha que viver pra conciliar esse paradoxo inestinguível. minha vida é estar sobre uma carruagem, domando cavalos arredios e independentes, cada qual desanfreado atrás de seu próprio caminho, em direções e intenções opostas. queria não ser tão ansiosa, e conseguir firmar meus pés sobre o presente agora. essa intranquilidade, esse tédio, consigo me sentir quando tinha 14/ 15 anos, o tanto que não me senti assim naquela época... vivo uma tentativa frustrada de manter o equilíbrio, tendo que estar sempre conciliando lados tão largos, e tão obtusos dentro de mim. sei que todo homem, há de viver suas dificuldades específicas, mas sei que me canso, há mto tempo me canso, quando volto a mim me sinto com 60 anos, rastejados, e quietos, uma fera falsamente amansada pela cultura, por dentro muita mágica e sentimento lunar, um mundo inteiro trancado dentro de sua racionalidade estanque, sem gravidade. tudo ferve por dentro, e por fora só o marasmo.

domingo, 15 de novembro de 2009

equívocos lingüísticos - the pursuit of happiness

é inenarrével o prazer que um ser humano no mundo moderno pode alcançar o sublime (meditando?/ respirando? NOT) simplesmente escrevendo frases com concordâncias absurdas. é tão simples e tão funcional que a gente até duvida!
veja bem, a colocação "adorei essas notíça" é suficiente pra iniciar um sutil formigamento no corpo, uma inquietação, um respiro pro coração extressado do dia-a-dia.
errar é tão gostoso, tão subversivo! é como inventar palavras, ou significados, e brasões, e quadros dentro da mente da gente. é o que nos move desde sempre. erramos, e quanto mais erramos, menos queremos fazer o certo. acho que ficamos viciados em ser os mauzinhos, errar consciente é o nosso ato máximo do desacato e do desprezo. afinal estamos todos iguais na condição de expulsos do paraíso e propriamente emerdados por Deus (isso quer dizer, submersos na merda Divina um a um) , excetuando-se a galera da África do Sul é claro, que encontrava-se geograficamente bem mais próxima de Seu Santíssimo rêgo.
para salvar esse mundo da total miséria e avacalhação, o mínimo que podemos fazer é dar a ele uma cara de piada inacabada, um Grand Finale realmente grande e digno como todos os grandes acabamentos. e é admirável mesmo que sejamos capaz de nos inflar de graça, ao invés de implodir no drama. afinal, poderia ser pior, hoje poderia ser domingo e você estar na casa da tia avó da senhora sua mãe com toda a parentada de graus (e habitats) mais obscuros, OU, curtindo o Faustão no SEU quarto, e tendo que reparar, tediosamente, que o Faustão preenche os quatro quadrantes da tela com a sua gorda falta do quê falar.
mas quanto aos erros, e à Graça, de quem são filhos, costumam dar sinais de seus efeitos em casos do tipo "as bicha se jogão", ou "aiii mordi minha mãe sem qrer", você se pergunta se leu aquilo mesmo. em seguida, conclui que fatalmente foi aquilo o que leu, e com pompa de herói, ao invés de se deprimir, se debater, ou gritar pela sua mãe, opta por encarar a coisa como um resgate kármico, um treino super saudável (e essencial para o homem de hoje!) que não deixa nosso famigerado coração cheio de amargura nos vasos. o humor é o próprio ato da transmutação. principalmente o humor negro (ele poderia ser de outra cor se a Vida nos liberasse os pincéis, mas digamos que Ela chegou primeiro e que não estava lá muito para solidariedades)... além de transformador, ver graça na pobreza de espírito, na falta de léxico ou na "distração sintática" do seu Orientador de Tese, é um ato de alquimia! você dá chance ao insólito de se travestir de mulher, e ainda fora da época de carnaval.
essa coceira que a gente sente no cérebro quando lê ou ouve algo inumanamente bossal, isso é o humor operando catarata de olhos fechados em nós... é nosso dever saber reconhecer os milagres quando nos deparamos com um.
e lembre-se sempre: se a vida te deu limões, nem pense em fazer uma limonada!



ps: os erros ortográficos no texto são recursos estéticos, ok, ngm se meta na minha lambança textual.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Solidariediet da Light

- Qual é, taxista? tá escolhendo passageiro só porque num tem taxi no rio? - batia nervoso, a mão contra a cabeceira do banco carona, tantas vezes quanto verificava fazer efeito.
O velho senhor motorista encolhia-se entre seus ombros ossudos sob a camisa social, gestipulava e falava muitíssimo baixo, não pude ouvir o que dizia.
Na Rio Branco, Preto. um negrume. As silhuetas só distingüiam-se da escuridão pelos faróis dos carros - e somente da cintura pra baixo; da cintura pra cima só as luzes dos celulares. A impressão que se tinha era a de que não restava mais nada. que nenhum dos edifícios do centro existiam mais. O que existia e se desvelava era uma profunda falta de orientação, não viam-se os buracos na rua, os pitocos da calçada, o espaço era preenchido por aterradoras e indefinidas dimensões, não se sabia até onde podia-se andar, sem bater, nem cair, ou tropeçar, sem tatear com os pés. Nada.
Nenhum semáforo, nenhum letreiro luminoso. As pessoas sacodem seus indicadores inquietos contra a indiferença dos automóveis.
Quando a situação é dramática, cada parte, cada pequeno pedaço do quadro comunica a configuração geral. Eu olhava pros dedos em riste, e eles demonstravam a triste falta de autoridade e de importância com que se regavam as pessoas. Era estranho como elas pareciam plenamente dispostas a se jogar embaixo das rodas dos carros, desesperadas.
Taxis cheios. Ônibus lotados.

Quando saí da porta da empresa tinha me convencido a ir pra casa de metrô, antes do apagão. Mas quando botei o pé na calçada me ocorreu que meu estômago estava latejando dolorido, ácido, como se tivesse tomado um porre de uísque barato e ainda de barriga vazia. Fui à Praça Mauá a procura da barraquinha da Fátima, comer um salcichão. Sentei, pedi, e pronto. nada. Foi o que me salvou, sabe, foi Algo a mais! eu podia perfeitamente estar presa no metrô!
Um choque, uma sensação de pânico me lambeu o corpo, e esse choque por ironia se assemelhava muito a um choque elétrico. (E o resto do país às escuras...) De repente me senti lacrada nos vagões como imaginava as pessoas no metrô e nos trens, sem ar.

Fui voltando aos poucos, a prestar atenção nas conversas a minha volta, numa das maiores avenidas do Rio de Janeiro. A luz só volta amanhã meus querido, não tem nadinha funcionando na cidade, dizia uma moça de voz clara e notavelmente irritada. Bateu o flip do celular com tanta força que temi pelo seu visor. Me senti bastante cuidadosa (ou pão-dura) comparado o meu trato com o celular com o da gordinha do meu lado, e olha que minha condição de comprar um outro aparelho era bem mais contundente que a dela.
Me voltei para observar as pessoas, e suas expressões eram tão somente a denúncia esganiçada do medo. Nenhuma comunicação com o resto do mundo, estavam todos isolados nas regiões em que se encontravam. As empresas de celular, como todas as outras, totalmente às escuras, enquanto os trabalhadores provavelmente suam seu suor mais carregado de exaustão para descobrir o que fazer com essa bomba que recaíra sobre suas consciências. Era a maior crise presenciada por mim desde a cesária. Os apagões do FHC ficaram na sola depois dessa, pensei com certo nível de espanto.
- O negócio é que uma usina da Light na fronteira com o Paraguai EXPLODIU - uma voz firme destoava do resto, pela sua franca tranquilidade. Falava enfaticamente e apesar disso, dizia como quem conta uma fofoca vinda de fontes obscuras. - Metade do Brasil tá às cegas, dá pra imaginar? - retrucou uma voz envelhecida, amarelada, e bem mais rouca que a primeira.

Perto de onde eu tava havia um grupo barulhento de pessoas, muitos timbres e tons diferentes disputavam os ouvidos mais próximos. Era algo sobre formar grupos que estavam falando. Cheguei mais perto e conforme me aproximava, as vozes foram se eqüalizando, consegui então entender por alto, que pretendiam formar frentes para encher os taxis, e negociar com os motoristas um preço acessível, alguns acrescentavam, alegando não ter mais que 2,80 no bolso. De repente, um anexo do agrupamento onde eu me infiltrara, gritou o nome do meu bairro. Corri pra perto e acabei me juntando a um grupo de 3 homens e mais uma moça. A moça parecia ter a mesma condição financeira que eu, enquanto os rapazes eram claramente mais pobres. Sem nem pensar entramos no primeiro taxi que Parou - aparentemente por benevolência divina! - e logo em seguida me ocorreu o quão incauta eu podia estar sendo. Não conhecia aqueles homens, nem o motorista, e a paranóia da cidade já havia me impregnado de tal maneira que me causou estranheza esse mecanismo de auto-proteção não ter disparado ao ver os sujeitos.

A experiência que todos viviam no Rio, e nos demais 7 estados do Brasil, tocava a todos de diversas maneiras. Pensávamos, sentíamos como um só povo, lesado. Por algumas horas, a impressão era de que todos haviam recuperado seus sensos de unicidade, e consciência comum, que fora totalmente arrancado de nós quando surgiu primeiro a idéia de governança. Esse sentimento era Algo que nem os mais ousados projetos presidenciais conseguiram desenvolver nos cidadãos, sob sua autarquia.
Recomendava-se no jornal que saíssemos em grupos, fiquei sabendo pelo taxista. Nos sinais, civis se prontificaram a sinalizar o tráfego. O sacrifício era total e consciente, todos trabalhavam - de acordo com suas disponibilidades - em pról da segurança e do transporte de todos. Naquela noite, pela primeira vez no país, não houve sequer uma morte por acidentes de trânsito.

Quando chegamos na Rocinha, para a surpresa geral, a comunidade em que morava o mais jovem do taxi, Jamilton, estava brilhando, acesa, com todo o vigor de sua gente.
O caos horizontaliza as pessoas, me surgiu na mente a frase pronta... desprevilegia os que nasceram de cú pra lua, os põe em pé de igualdade com os fodidos outros, tantos, com aqueles que limpam seus banheiros (suas privadas), com aqueles que fabricam os O.B.'s das donas de casa, com os temidos marginais, os excomungados bandidos. Cai por tabelas a sensação meritocrática feudal da Nobreza, e Deus por fim revela que não se alinha muito com a idéia de que os nascidos nos baixos estamentos o tenham feito em função de Seu excêntrico senso de justiça, afinal, apesar da Zona Sul estar no breu, a favela continuava brilhando.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"a nalzea"

aquilo que me leva a não encarar meus abismos, e a não cumprir com meus compromissos, contêm a mesma substância: o não querer.
nada.
nem que seja de graça, nem que não custe nada,
falar, assistir ou buscar.
não quero dizer não, nem me impor, muito menos "dar um jeito". meu desejo, e minha prática, tem sido abandonar tudo mal-feito, e depois disso, nem alçar um segundo olhar, abandonar e só.
e deixar pra lá.
espero algo do meu entorno que nunca, nunca vem. e eu não espero dentro de mim, nem espero junto a alguém, espero lá fora, desertora, estrangeira, e tolamente desperdiçada.
dentro, o sujeito contraposto ao seu meio, repousa um vácuo quente e úmido, de sentimento fermentado (de puro desgosto aguado!) acabo que deixo um monte ao acaso, sem ter o mínimo de cuidado - principalmente com o que falo -, e escuto as outras falas tagarelas, verdadeiras epopéias narradas, e no fundo uma certeza seca de que todos tem tanto nada a comunicar quanto eu.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

endagações esmaecidas de domingo

fico me perguntando quanto tempo somos capazes de viver em movimento pendular, entre achar que alguém merece o mundo, e achar que ninguém no mundo te merece; entre se perder nos mistérios de quem a gente gosta, e perder o que a gente gosta nesses mistérios...
por que tudo invariavelmente acaba em silêncio e tédio? não somos tão vastos? o que será que me corrompe a visão, vez em quando? que não vejo em nós essa nobreza de ser incompleto, essa grandeza de nos refazermos e reinventarmos? onde está a beleza da nossa limitação?
aonde eu perdi o glamour do fracasso que eu não consigo achar?
eu às vezes só vejo uma montanha de equívocos e confusões, e tentativas desesperadas (não belas, só honestamente descontroladas) de fingirmos que somos serenos e seguros.
a vida é uma tentativa fracassada de produzir sentido, estando mergulhado na falta dele.

cadê o mundo colorido prometido pela nova era dentro de mim?
acabou o inverno e cadê minha fantasia de primavera?

domingo, 10 de maio de 2009

Sobre o brilho e as dores do Mundo

eu fico boba quando eu vejo a relação da minha mãe com a minha gata (e vice-versa)... quando elas se olham, alguma coisa acontece, há alguma partícula que as duas dividem que faísca em seus corpos quando se reconhecem os olhos. o mágico mesmo é que enquanto trocam esses olhares, parecem estar preenchidas de um sentimento que somente elas compartilham, e do qual o resto do mundo não participa e não está nem ciente de que existe, que dois seres diferentes podem comungar o mesmo mantra... quando elas se olham é tão sincero, que quase dói lá no fundo a certeza de que não há honestidade maior do que a que compartilhamos com esses seres, tão diferentes de nós. e não digo somente dos gatos, digo de todos os animais que nos olham fundo, através de nossas carcaças perecíveis, sem a menor consciência de estarem nos despindo, e com a súbita inocência de criança que só sabe ler o sensível, só sabe ler o óbvio. pq sim, é preciso entender que nossa linguagem é por demais complicada pra que possamos dizer, ou ser algo que não seja dubio, ou paradoxal. somos bichos imensos e imponentes, resignados ao sapato apertado da métrica, isso nos faz espécimes complicadíssimas... e os nossos companheirinhos não vêem isso, eles não nos julgam. e é por isso que penso haver entre nós e os demais animais do Reino, uma espécie de equilíbrio, pois quando nos relacionamos com eles, voltamos em pequena medida a falar a língua de deus *, a língua que não está nas impressões recentes da bíblia, a língua que o nosso povo esqueceu... e isso nos trás um pouco de volta pra perto do que realmente somos, quando ficamos encantados com o quanto de amor podem nos dar esses conterrâneos de peculiar fisiologia...
quando vejo a Bel e a minha mãe se olhando, eu penso em tudo isso. e mais ainda em uma passagem do clássico do Milan Kundera (A Insustentável..) que falava mais ou menos que o verdadeiro grau de bondade do homem, só poderá ser medido no seu relacionamento com os que não demonstram força, ou indicam perigo: os demais seres vivos... nunca poderá ser dito bom um homem que ajuda somente àqueles dos quais sabe que irá tirar algum proveito mais tarde. não existe bondade com quem você mede forças. seja um affair, uma ex do seu atual, ou whatever... dificilmente haverá bondade pura entre os homens, com seus desejos e intentos tão sofisticados... a bondade é gratuita, aparece sem preço de custo, ou juros! e há em nós, uma grande gama de interesses, ao qual o mundo está subjulgado em nossas sinapses, e assim fica difícil, realmente, nos doar a qualquer outro... e do jeito que as coisas andam, se olharmos, como Milan o fêz, para o mundo em que nascemos e o mundo que estamos deixando, tão porco, tão podre, tão violento, é impossível evitar o sentimento de que algo saiu errado...
das árvores que colheríamos o alimento, fizemos tábua para nossos móveis, e papiro pras nossas assinaturas; dos animais que fertilizariam esse solo, ou daria-nos leite, ou ovos eventualmente, tiramos logo a carne, a pele, o osso, o tutano pra fazer creme de cabelo, até que aquilo não pareça com algo que um dia teve vida... e é assim que eu imagino a Terra, momentos antes de as deixarmos, seca, pelada - ficou que só os galhos, coitada - rachada feito o solo do meu sertão... tanta gente viveu nesse mundo, e lutou, e deu a vida a essa luta, pra que deixássemos a nossa casa assim, marcada pra morrer; pra que deixássemos a vida com medo do que pensar da vida que deixamos pras crianças viver... eu me envergonho, me enveneno, até, desta verdade, honestamente. e essa vergonha cresce a cada dia, meu tamanho meu corpo físico lúdico gasoso, meu mundo, meu Universo Inteiro se reduz a cada dia... todo dia acordo um pouco menor, um pouco mais curvada, com mais rugas... e me sinto cansada... e fico pensando até quando... até quando, meu deus, eu vou acordar com o peso do mundo desmoronando sobre as minhas emoções... é possível envelhecer com isso guardado?
eu quero viver pra ouvir o ronron dos gatinhos, e a mágica composição do canto dos passarinhos, e ver o sol nascer, e morrer, todo dia, sem pensar que a minha espécie está destruindo tudo aquilo que eu amo...



* por favor, queiram entender aqui que "de deus" não se trata SER BOM, MORALMENTE VIGOROSO, ou DOGMATICAMENTE ACEITÁVEL, me refiro simplisticamente ao que é da Natureza, não me importam muito os nomes...




Lui diz:
*dps te mando o link se quiser
*mas eh mais um dakeles textos reclamando da vida
Dani diz:
*mande
Lui diz:
*eu preciso dessa terapia, eu acho... pra continuar vivendo. pra nao ter q cuspir tds essas coisas na cara das pessoas
*pela minha paz de espírito talvez...

domingo, 26 de abril de 2009

Ensaio sobre Tudo

...da Política aos Sonhos.

quem foi que disse que sonhar não é digno? onde está a dignidade em se resignar às Coisas Que Existem (e enxergamos)?
onde está a verdade em viver 1/10 da realidade para que o cérebro continue a repousar, lépido, quase morto de tédio, sem sinapses epifânicas?
aonde ser um Ser estacionário leva a gente a algum lugar? que retorno isso dá?
a sensação de poder se omitir em uma decisão importante, de ser únicamente um confluxo de forças e seus atos mero reflexo dele?
não sonhar pra não arcar com as responsabilidades do sonhar? evitar pensar no pensamento que te leva a elocubrar sobre eventos que seu sentir não consegue suportar?
eu acho o contrário, acho que a gente tem é que mergulhar em tudo, ir por onde achar que deve, atolar o pé no que dói, no que a gente tá sentindo de verdade. viver tudo, porque é pra isso que nascemos, tem que ser de sangue e saliva, a vida, se não não faz sentido...
é preciso não deixar os sonhos suspensos, inertes, eles são justamente a prova viva da Energia Dinâmica que nos permeia - não podem simplesmente existir. manifestar É sua essência. dos sonhos, eu digo, e de toda a gente também. como diz até o Fichte, quando menciona que a essência do que vive só o é, de fato, se se manifesta através da ação, das atitudes...
pessoas passivas são simplesmente erros cósmicos, estão indo contra a efervescência da vida, estão indo contra seus eu's levianos e despreocupados, tão dispostos a transformar o que é banal - aglutinar novos significados, e nomes, e cheiros, e texturas.
não estou querendo dizer que são a escória, que deviam ser mortos, junto das pobres almas esteriotipadas, mencionadas no post anterior... é só que me dá um aperto absurdo no peito e na consciência, saber que há gente que deseja tão pouco; que o mundo high-tech globalizado (confluência de jargões batidos agora uhuhu) tenha dado a sensação-miragem às pessoas, de que elas não precisam de mais nada, de que tudo está preenchido, e se não, a vida vai levando de alguma forma... é triste pensar que a maioria das pessoas SONHAM poder ter o carro do ano, uma vida estável, enquanto podiam querer tanto mais; e mesmo as que são imbuídas da pretensão de mudar o mundo, pensam maneiras de melhorá-lo sem pensar nos que estão na base dessa estrutura, naquelas que não são vistas no dia-a-dia, ou contempladas pela mídia, sem pensar nos ambulantes, nos agricultores, nos desnutridos... é só injetar 4bi no banco central que acabou o problema da crise! só fazer uma "limpa" nas ruas e nas vias que aí tem espaço pra galera circular, tudo limpinho... só uns 350 trabalhadores informais sem as mercadorias que compraram - dividida entre os guardas Municipais - e sem poder vender nas ruas...que tipo de bem estão fazendo pra essas pessoas? ¹
as pessoas (eu adoro falar delas né, já deu pra perceber), pra fora da cúpula de representantes-que-não-representam, não percebem que estão vivendo num sistema doente, e que junto dele, adoecem também. adoecem todo dia, arrebatados pela propaganda antiética e corrosiva, com os discursos negligentes, sorrisos falsos, com o abismo entre os corpos na rua, com o olhar já turvo de tantos valores pífios, de tanta pequeneza, um dia não caberão em suas carcaças...
nosso sistema atual pega o pior da condição humana e a abstrai à estratosfera, de forma que uma pessoa efusiva e simpática se torna automaticamente interesseira, ou arrogante; um sonhador - um iludido, e por aí vai... a lente com a qual o sistema conta é ensebada por uma forte camada de "inveja". é olhar pro outro já esperando que não vá te acrescentar nada - porque se esperasse o contrário, se desarmasse da vaidade desnecessária, encontraria-se incontáveis vezes abolutamente enfeitiçado pelos universos de outr'éns, e isso seria totalmente inaceitável pro seu darlin' ego², pra sua vontade de superação das virtudes alheias. até um pouco cansativo, estar a todo momento se surpreendendo com a multiplicidade de jeitos e formas de se ser e de jogar o corpo no mundo...

no final de tudo, it all comes down to this: ou você é um acomodado, ou é um romântico irrecuperável ou um competidor sangrento; fora desse campo semântico nomenclatural não existe vida. você vê, não nos deixaram muitas opções...
é por isso que eu agarro firme meus sonhos, durmo e acordo com eles todos os dias, aqueço-os com muito amor e vontade que floresçam, e dou a eles toda a atenção que o resto do mundo não tem de mim... mais que criações abstratas, eles são as sementes que eu quero ver germinar no meu hoje, no meu agora! porque amanhã ninguém sabe...


(os dois últimos textos foram escritos depois de ouvir/ler percepções e projeções de alheios, precisava tornar público ;p)

¹ - um dos projetos emplementados pelo Choque de Ordem.

² — Nosso modo de perceber é o modo do predador — ele me disse uma ocasião. — Um jeito muito eficiente de avaliar e classificar a comida e o perigo. Mas não é o único jeito que temos de perceber.




"O INTENTO não é um pensamento, ou um objeto, ou um desejo. O INTENTO é o que pode fazer um homem vencer, quando todos os seus pensamentos lhe dizem que ele está derrotado. Opera a despeito da indulgência do guerreiro. O INTENTO é o que envia o xamã através da parede, através do espaço, para o Infinito."


letargia

dormindo,
acordar
domingo

domingo,
acordar
dormindo

Quem sou eu