...No princípio era o Verbo...

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

game over

eu escrevo porque não suporto o silêncio e a indefinição. pelo mesmo motivo eu falo, canto, e converso. aniquilo os espaços. digo não. me rebelo contra o que não sei. dou um comando à vida e ela me obedece. me instruo me preparo me esvazio me esvaio. me contraio. me retenho. me acalento. me fecho em copas em volta de mim mesma, me aninho.

não consigo acompanhar, cansei. se pudessem pelo menos me deixar parada.

quebrar a inércia é sempre poderoso. e insuportável. nada me estressa mais.

mas sei que não posso ficar aqui fazendo nada, vendo meu mundo se virar de cabeça pra baixo e me mostrar a bunda.

e não há nada que eu possa fazer, se não ver tudo de forma diferente
e não forçada

e não há nada mais terrível e difícil e incontornável
do que ser espontânea quando acabaram seus manuais

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Precisa-se de uma solução gráfica p/ tudo o que eu ignoro


para minha ignoração


magnânima e ostensiva


opressora


ignorabilidade


duplicando layers, destacando a tensão


dando goles esfomeados no balde de café como isso ofertasse qualquer solução


,qualquer


me embrenhando nos cachos fios condutores de informação


da cabeça encaracolada, do raciocínio plural simultâneo e multifacetado


indeciso


por sua natureza narcísica:


volta-se constantemente para o centro


para-si


confunde-se com o tanto que pensa que sabe e pensa e quanto mais elabora mais sabe


que ignora.


confunde-se e só então se volta para fora:


inconclusivo e poente.


um não saber desespero pondo-se ao contratempo da certeza, batida firme


e certeira.


um não saber de geometria indefinida. o que tem de saúde ali habita porque irrequieta e imprecisa. explica (a si mesma): A Falta de Sentido Busca Em Rondas Organizadas O Sentido Que Se Esconde Debaixo da Cauda ou por Entre os Pêlos dos Cães, entre os Fios do Novelo. Entre os Caixinhos da Lã, Entre as Estacas do Portão. O Fio de Sentido Tece a Escuridão.




saber não é nada perto do que não faz sentido algum.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Morte como conselheira do vivo

empurro a parede do Não até onde me permite a inspiração
espalmo as mãos contra o concreto que me diz Eu sou de ferro
minhas mãos pequenas, menos de 15 centímetros em cada cano de descarga frenético
dizem de volta ao Não e ao perecimento o meu desdém eterno
eu desafio a Morte porque a ela bem conheço
porque a respeito e elegante, ela só chega quando bem lhe convém

por isso enraizo meus pés no Agora
por isso minha vida é cheia de significado maior
porque enraizar quer dizer nutrir-me do que há,
é mostrar pra mim mesma que vivo e que viver é minha única dádiva
que a vida é minha diva no divã, e eu me encontro exatamente de frente pra ela
inquisidora dela, inquisidora da Roda
agulho, ferrôo, provoco dores cáusticas, vejo vomitar as certezas de raiz
vejo transcender o limite dos braços e pernas

e recolho minhas raízes de volta, pra dentro de mim,
e nutro-me então do caos interior, da vastidão do microcosmos que Sou
Eu Sou
e nada mais.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Biocentrismo

O nascimento e a morte, a ascendência e a decadência, não são símbolos da finitude e do perecimento, são ao contrário, a expressão mais pura de como se mantém a eternidade.
Quando pensamos eternidade pensamos algo perene e constante, inabalável, imóvel, algo que sempre permanece. no entanto, muito nos confunde pensar que o fato de ser perene se sustenta através da eterna renovação.
Concebemos a morte como fim, pois temos como único ponto de vista o fim da vida de um indivíduo, não exnergamo-lo dentro do contexto ao qual serve (e do qual é servido); custamos a perceber que a morte de um ser, serve à vida de um organismo maior, só percebemos os ciclos da terra e da carne sem temor, quando estendemos nosso olhar aos demais seres deste planeta. Somente entendemos a Eternidade quando vemos os frutos das árvores caírem no solo, "mortos" (perfeitos para a nossa alimentação e desenvolvimento e a de muitos outros), e com a sua morte o solo ser fertilizado, e mais uma vez coroado com sementes e novas possibilidades de vida. Vem um inseto e poleniza uma flor, que fará nascerem outras flores; vem um pássaro, come a fruta da mesma árvores e deixa cair as sementes ao longo do seu caminho; esse pássaro morre na mandíbula de um lobo, e esse lobo terá dentro de si o que precisa para viver - assim são todos os animais, sabem o que precisam, sabem se render quando vêem que isso é necessário, e jamais vacilam em sua profunda conexão com a Terra.

A Eternidade só é compreensível sob um ponto de vista cosmológico, nunca sob um olhar individualista, ou especista.

sábado, 21 de novembro de 2009

zen-budismo para cabeças-quentes

quando você olha pra muralha
e acredita que ela está
inabalavelmente lá,
aproveita e pensa
que isso
também passará.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

uma parte de um texto que vale a pena na íntegra

A transfiguração pela poesia, do Vinicius de Moraes.



"...Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.
(...)
Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos
De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões.
A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar."

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

tenho medo que não reste de mim mais que
o nome
que reste em mim
apenas a fome
e mais um punhado de reflexões estéreis

tenho medo que o enredo não veja mais
que apenas tédio
medo de que se vão os sonhos,
de que não reste mais que o sono
que não reste mais
que bocejo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

credo quia absurdum

Anotações sobre "A Chave dos Grandes Mistérios"*

a fé não vem da luz, a fé vêm da percepção do vazio, da incomplitude e da escuridão.

creio, porque é absurdo.
se não fosse absurdo ou pelo menos nebuloso; se fosse claro e palpável, não creríamos, saberíamos pois. o saber é encargo da ciência, nunca da fé.







* Grimório escrito por Eliphas Levi, de acordo com Henoch, Abraão, Hermes Trismegisto e Salomão.

Espero que dê pra entender, embora seja algo mais para eu registrar do que qualquer outra coisa.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sobre a Consciência da Morte

SOU,
o homem enxerga o abismo que a auto-consciência lhe deixou,
nu em frente ao espelho, as estradas turvas
que a natureza confeccionou,
entende a dicotomia que Deus
à existência condenou
saber que a vida é a promessa da cova,
aberta e exposta,
ao sol que já pousou;
que viver é lavrar o solo infértil
esquecendo o destino que já o lavrou.

SOUL, a alma mesmo,
de homem-bicho que se sente inteiro,
a buscar o motivo (escondido)
de se viver a vida a esmo.

viver é preencher o intervalo intrépido
entre despertar e esmaecer, completo.



Retomando o assunto do post "a espera", e relembrando um comentário do Zi sobre a própria espera, que diz:
A consciência vem de esperar. Já viu algum animal esperando? Esperamos pelo tempo e o tempo dá-nos a morte.

domingo, 3 de maio de 2009

a espera

espero. convido minha sensibilidade a perceber um porvir. a espera é muito insegura, entende, depende da confirmação de que de fato, algo está por vir...
- eu espero que estejam todos bem, espero que entendam...
a espera é encarar abismos, você sente, não sente? prenúncios de um chão conhecido contra o qual acredita que irá se chocar, lá na frente?...
a espera é, ao mesmo tempo, a constatação da falhabilidade dos projetos, dos métodos. você espera, com a visceral certeza de que é impossível de ser alcançado. e por ser inalcançável, você espera.
caindo, caindo, cada vez mais fundo na experiência de se estar caindo, caindo... a espera também é queda. a espera também é perder as referências. aguardamos, reticências, vazios de nós mesmos, inundados na metalinguagem. a espera é metalingüística, eu digo. só se acham as tais referências dentro dela mesma.. em um instante ela simplesmente existe, no instante seguinte é a revisão, a releitura de sua condição de espera. estou consciente da consciência. estou esperando, e conheço a profunda sensação de se saber à espera. não há indícios do objeto esperado, e no entanto seguimos buscando e crendo que talvez não hoje, ou agora, ou na próxima esquina, mas seremos plenos, em algum momento, em algum dia de nossas vidas.

~

acho que cabe aqui um pedaço de algo que escrevi há algum tempo, sobre a espectativa, esperança, ou espera - como quisermos chamar.

mas ainda jaz um mal na caixa de pandora,
e as pessoas sabem. não sabem que sabem, muito embora.
mas sentem no peito que algo coça e incomoda,
percebem também, que esse peito já não comporta
o que nós, humanos, guardamos sem saber da nossa hora
sob o risco do padecer de nossos sonhos.
- a espectativa, mil demônios,
trata de nos manter insones, crédulos
à espreita de uma estrela que já morreu a 100 mil anos.

Quem sou eu