...No princípio era o Verbo...

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

game over

eu escrevo porque não suporto o silêncio e a indefinição. pelo mesmo motivo eu falo, canto, e converso. aniquilo os espaços. digo não. me rebelo contra o que não sei. dou um comando à vida e ela me obedece. me instruo me preparo me esvazio me esvaio. me contraio. me retenho. me acalento. me fecho em copas em volta de mim mesma, me aninho.

não consigo acompanhar, cansei. se pudessem pelo menos me deixar parada.

quebrar a inércia é sempre poderoso. e insuportável. nada me estressa mais.

mas sei que não posso ficar aqui fazendo nada, vendo meu mundo se virar de cabeça pra baixo e me mostrar a bunda.

e não há nada que eu possa fazer, se não ver tudo de forma diferente
e não forçada

e não há nada mais terrível e difícil e incontornável
do que ser espontânea quando acabaram seus manuais

domingo, 28 de agosto de 2011

MANI

não saber como se processam os autos mágicos da psiqué, como saem da indefinição da figura toda a um recorte específico à margem. não saber como colhe significados a mente; saber que a construção de si é passado mas se consagrando eternamente no presente. a repetição infinita da grandeza contida numa unidade infinitesimal de medida. o padrão repetindo virando algo novo que vem vindo, o fractal das experiências de vida virando um algo a mais que não se liquida ao fim da linha. deixa a alma, o corpo, pra brincar de ser em outro momento, nos sonhos, nas peças coordenadas de outro engenho, a alma se recria em outros tempos, a jóia da consciência n'est jamais fini.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

notas de brincar de notas

tecendo notas em pleno fim dos tempos. teço notas como quem vivencia um cântico ancestral. descubro meu espaço sagrado quando estou tomando notas. vivo minha hora de poder. antigamente a incoerência do fim de tempos me assustaria e entupiria todos os meus sentidos e eu ficaria estática. a voz da sobriedade que se crê razoável assim me diria, o disparate, a infâmia do fato. jornalistaria vivendo essa cena, enfarpada e elétrica.
mas continuo tecendo notas. a vibrar o fim do mundo. isso é quem eu sou agora. tecendo como cada pensamento fosse um fio.
como a sensação também é o fio (da colcha e da navalha) e o ar e o som discreto que faz o ar dando sentido ao fio, animando a mão que tece fios como notas - essa relação ninguém escuta,
e como tudo vem desse mundo invisível antes de ser som e fio, pensamento e palavra escrita ou falada...

tecer notas está me transformando. já não são mais notificações, isso que registro e imprimo na minha pele - papel mais que perene - já não é estatística pura. não é fenomenologia da impressão. não é número impresso no boletim. não é o ridículo tentando professar o infinito. não modela o barro previsível. também não quer espiar dois dedinhos no futuro.
são notas de cheiros, notas de luzes, de presente, feixes brechas e objetos, refletores, vidros, espelhos e estrobos. são imagens antes de serem imagens.

as notas que tomo estão me transfigurando. entorno um balde de histórias sobre meu crânio e do seu interior oco e vascularizado se arvoram caules com flores na ponta, folhas no comprimento. e as notas são o cheiro que inalo dessas flores. o que elas me dão sem saber. minhas notas não são mais cacos, sua emanação não tem poderes de reconstruir a idade de um rosto.
são notas de piano. anedotas de bêbado. passagens grandiosas da bíblia, talvez até um discurso exaltado de crente. não são páginas derrotadas de dicionário, embora que todo poeta dele se farte as vezes, pra sua arte.
são notas que são VÍRGULA mas não são tão, que não foram mesmo feitas pra ser. não nasceram, mas existem, e não tem muito a contar de si mesmas.
pedem olhar vivo olhar crédulo de criança, pernas fortes, joelhos bixados. não contam estórias, é, mas cantam caladas, e se silenciarmos os sinos e a ansiedade, podemos ouvi-las larilarár. é bonito o que dizem sem dizer.
são surdas e seu mundo interior é rico dos sons impossíveis. chegar e morar onde vivem as notas me faz respirar melhor.
cantarolar já tem outro significado, e eu já não sou mais a mesma.
isso é quem eu sou, por ora.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

o sopro mora

quando o ar toma o corpo e o corpo toma o ar
num vôo (em tom noir)
o corpo toma o ar pra si
na caneca, toma de canudinho
ele toma chá de ar e de pedra
de carbono, do que é feito sua santa matéria
da caneca evaporam fios de ouro que sopram na chama
dourada da vela
o vento o calor carrega
chega abafado no crânio nu do velho, na sua lustrosa careca
sopra palavras de luz e de trevas que na arte são ferramentas gêmeas
o calor leva as idéias todas para iluminar a noite no barraco da favela

chora a chuva,
se esfacela
e o corpo toma a chuva em um berrante
pingo-com-pingo
onde chuva rima com ternura
e com acolhimento,
e chocalho com índio
rima conterrâneo
rima com a terra: barro e gerânio
chuva rima com o choro do povo
precipita como palpitassangue no coração de toda Mãe

o ar entrando, enquanto, toma um pouco a sua consciência
ar retém no corpo
olhar pra dentro, gruta
um alento
raro
essa pena de pássaro são duas-pernas
seu poder é o sonho da cobra
o salto é
um vôo, o corpo no espaço, pluma
pula! e ali vive solto eterno, sem gravidade sem lei
o ato cego vôa porque
está vivo de outros sentidos
a alma lhe perfurou olhos para que pudesse sentir o abismo
palmilhado pelos seus pés
- para que visse o perfume da tarde,
e soubesse as cores do frio

o sopro mora comigo. o sopro divino habito. o sopro é o hálito de tudo o que é vivo.

Quem sou eu