...No princípio era o Verbo...

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quinta-feira, 20 de março de 2014

porta de incêndio

vou deixar você descobrir meus truques
depois que você for fuçar
os fios de que sou feita

vou permitir que você chegue
onde nenhum outro homem chegou
à superfície lua da minha mente
à superfície crua da minha boca, rente

vou deixar
a porta aberta
você entrar
e eu te espero
testemunha
do espaço que vivo e abro
pra você
chegar

sábado, 16 de julho de 2011

em tempo

Tudo eu Sou, mas nada soa meu
Nada é meu aqui onde habito
É tudo um empréstimo rítmico do Infinito
E o ciclo que corro sempre sem pingos de sentido
E o ciclo que mora no meu colo de mãe
ainda não findo
E o ciclo que diz que tempo nenhum começa ou termina
E o círculo que diz que o que sou
a linha não delimita
E o cartório que ilude dizendo solteira ou casada
que não diz se bem vivida, se aflita, ou se bem-aventurada,
E o espelho que engana a verdade
e diz que é bonita, bonita a vaidade
E todos os registros não verídicos dos passos da idade
O tempo não passa
A Alma não morre
Tudo Sou Eu, aqui ou lá na frente
E podem dizer o que for, pra eu, o tempo não corre

sexta-feira, 1 de julho de 2011

buraco no espaço

o espaço que descansa desconhecido no espaço
entre
o então nervo óptico
e a visão

o espaço em que
desconhecido o mundo, o interpreta,
esquecido o impulso elétrico
que o último gerou:
realidade

quanto espaço
para dúvida e incerteza
entre a enzima e o prato
na mesa

quanto de caos comporta o planejamento
para criar certezas

quanto de desconhecido existe e mora
no que já existe e que já conhecemos
uma vez
em um espaço
e em um tempo talvez
quanto?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

notas de brincar de notas

tecendo notas em pleno fim dos tempos. teço notas como quem vivencia um cântico ancestral. descubro meu espaço sagrado quando estou tomando notas. vivo minha hora de poder. antigamente a incoerência do fim de tempos me assustaria e entupiria todos os meus sentidos e eu ficaria estática. a voz da sobriedade que se crê razoável assim me diria, o disparate, a infâmia do fato. jornalistaria vivendo essa cena, enfarpada e elétrica.
mas continuo tecendo notas. a vibrar o fim do mundo. isso é quem eu sou agora. tecendo como cada pensamento fosse um fio.
como a sensação também é o fio (da colcha e da navalha) e o ar e o som discreto que faz o ar dando sentido ao fio, animando a mão que tece fios como notas - essa relação ninguém escuta,
e como tudo vem desse mundo invisível antes de ser som e fio, pensamento e palavra escrita ou falada...

tecer notas está me transformando. já não são mais notificações, isso que registro e imprimo na minha pele - papel mais que perene - já não é estatística pura. não é fenomenologia da impressão. não é número impresso no boletim. não é o ridículo tentando professar o infinito. não modela o barro previsível. também não quer espiar dois dedinhos no futuro.
são notas de cheiros, notas de luzes, de presente, feixes brechas e objetos, refletores, vidros, espelhos e estrobos. são imagens antes de serem imagens.

as notas que tomo estão me transfigurando. entorno um balde de histórias sobre meu crânio e do seu interior oco e vascularizado se arvoram caules com flores na ponta, folhas no comprimento. e as notas são o cheiro que inalo dessas flores. o que elas me dão sem saber. minhas notas não são mais cacos, sua emanação não tem poderes de reconstruir a idade de um rosto.
são notas de piano. anedotas de bêbado. passagens grandiosas da bíblia, talvez até um discurso exaltado de crente. não são páginas derrotadas de dicionário, embora que todo poeta dele se farte as vezes, pra sua arte.
são notas que são VÍRGULA mas não são tão, que não foram mesmo feitas pra ser. não nasceram, mas existem, e não tem muito a contar de si mesmas.
pedem olhar vivo olhar crédulo de criança, pernas fortes, joelhos bixados. não contam estórias, é, mas cantam caladas, e se silenciarmos os sinos e a ansiedade, podemos ouvi-las larilarár. é bonito o que dizem sem dizer.
são surdas e seu mundo interior é rico dos sons impossíveis. chegar e morar onde vivem as notas me faz respirar melhor.
cantarolar já tem outro significado, e eu já não sou mais a mesma.
isso é quem eu sou, por ora.

Quem sou eu