...No princípio era o Verbo...

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terça-feira, 21 de junho de 2011

uma ode à forma e à delimitação

a impressora sem bandeja cospe folhas desordenadamente
cobre o carpete velho do escritório de folhas escritas cuspidas ainda quentes
a contenção da bandeja não é represa, aqui veja
pode ser seu suporte!
sem essa tal bandeja - que não é a megera embora pareça -
se lançam as palavras ao chão, suicidadas,
presas ao papel que lhes descreve a forma, presas à forma da qual não escapam
: ainda sim sem discernimento
as folhas caem do alto da estante distraídas, distantes, lambem o cimento
algumas acidentalmente voam pela janela, saem descalças por debaixo da porta, outras se desintegram na piscina do edifício ao lado

em tempo: dar apoio não afunda os ombros, não faz corcunda nem estrago,
como também nem espeta - também nem sufoca,
faz crescer, nem aperta nem poda

mãos seguram flores e adoram peles pêlos plumas, selos
não só as oportunidades que seguem seu rumo - mãos nem sempre seguram
bandeiras e bustos não constroem histórias e homens públicos
a fundação de um espaço ou de um monumento não é o pretexto perfeito pra bandeiras e bustos
mas nem por isso se poupa uma praça ou um prédio
do gentil gracejo do pano da bandeira
que dá vida ao vento em bruxuleio,
nem por isso se poupa o sono do bocejo,
nem por isso poupa a franja a visão dos olhos, então,
que seja livre a alma,
que ela possa ser! que possa ser a pureza do conteúdo
e que seja clara e que todos possam provar da clareza que nela possam ler!
edificar é ofício sem desespero, não tem que ser difícil
mas que saber do térreo o andar que se constrói primeiro

terça-feira, 13 de abril de 2010

ninguém precisa ler isso, right?

tem um milhão de motivos que levam uma pessoa a agir de uma certa maneira.
naquele dia, um domingo, com Marx espiando sobre meu ombro e meu professor de sociologia me observando do mais alto de minha (in?)consciência (tão alto que eu não conseguia nem enxergar), eu ainda pensando no que tinha feito no dia anterior, pensando que o que tinha feito no dia anterior eu tinha me jurado não fazer nunca mais. e que o que eu tinha me jurado que não ia acontecer mais talvez fosse a quarta vez que estava me oprimindo naquele mesmo ano, que mal havia começado ainda, mal havia dado seu primeiro suspiro, não estávamos nem na metade daquele semestre e eu já estava velando o mesmo assunto de novo. e isso no mérito de uma questão específica, imagine quantas vezes não tenha me sacaneado no mérito de other psychological dots, refurtando minha consciência, refurtando o que vi, o que entendi, dizendo a mim mesma que não, não era bem aquilo que podia ser outra coisa... imagine!

mas naquele dia, naquele domingo já eram 8 da noite, e precisava ainda naquele domingo comprar anticoncepcionais.
notei "em cima da hora", quando cheguei em casa ainda bêbada ou meio de ressaca não se sabe, que só haviam sobrado da cartela os tais comprimidos "inertes" que não servem pra nada, só pra não quebrar a rotina, e estão longe de funcionar como a pílula que eu precisava. pensar em comprimidos inertes que só mantém o condicionamento, bem, isso me lembrou que talvez fosse isso que tinha feito ou sido ontem... tinha sido algum movimento que a gente faça apenas em nome de keep the old habits. por que diabos eu faço isso?, de novo me pergunto, e passo o dia inteiro refazendo e desfazendo e refazendo de novo essa pergunta na minha cabeça horas à fio até que mesmo o sol já estivesse cansado daquela inércia, daquele algo que eu praticava apenas para manter o fluxo das coisas para me manter distraída de fazer o que eu tinha que fazer, apenas para manter as velhas artemanhas do contraeu, aquele que joga contra mim com as minhas próprias armas e que habita sigilosamente dentro de mim de forma que eu mal o percebo, mal noto que ele existe, alguém sempre tem que me avisar, e no momento não disponho no banco o valor que me pague uma boa terapia que conserte minha psiquê mal distribuída. é impossível ganhar de um inimigo tão hábil..

tem um milhão de motivos que levam uma pessoa a agir de uma certa maneira. e raríssimos motivos que levem essa mesma pessoa a agir de outra forma.

e naquele domingo eu precisava fazer mais do que gastar dinheiro com algum comprimido que eu não tome, eu precisava me livrar dos indícios de uma possível burrada. e então fui lá, na drogaria mais próxima e mais barata, ainda pensando que não queria estar gastando dinheiro, que não queria estar precisando de dinheiro, mas um filho definitivamente era a última coisa que eu precisava! e então na fila, com o remédio na mão sem conseguir descansar repousar minha mente em algum lugar qualquer que fizesse sentido, pensando em comprar o exame lá que testa se você tem um "presentinho" sendo fabricado dentro do seu útero, sem conseguir pensar com clareza e sem tbm pensar em dividir aquilo com ninguém, olhando as camisinhas enquanto o caixa atenciosamente me observava do jeito que nenhum caixa de farmácia deve fazer, como nenhum caixa de nenhum lugar deve fazer ao formular algum pensamento qualquer sobre o cliente, que pelo menos disfarce, mas ele continuava me olhando, e sua mente parecia tão inquieta quanto a minha, e eu achando que era a coisa mais comum do mundo comprar anticoncepcional em qualquer dia e em qualquer horário, quanto mais num domingo - ressaca de sábado... e por algum motivo, meu olhar antes sem sentido percebeu que talvez quisesse me dizer alguma coisa sobre estar olhando camisinhas e comprando o algoz de um feto mal-intencionado (fruto de um ato pessimamente planejado) num mesmo instante. e me veio como que de fora de mim, como que de fora da turbulência caótica de possibilidades incidindo sobre um mesmo fato, como se Algo tivesse uma intenção muito explícita de chamar minha atenção pras camisinhas, e esse é o momento em que todos os leitores me chamam de louca por essa mania que muitos consideram admirável outros julgam simplesmente disparatado que é minha estranha fé ao enxergar os fotogramas que se passam quando penso minha vida, uma cadeia intrincada de eventos "aleatórios" que levam a uma percepção muito consistente de estar agora no lugar onde eu estou, e a percepção inadiável de que agora, tudo o que veio antes faz sentido.
eu precisava mudar minha forma de agir, para que pudesse ver outra coisa em mim se não a repetição desastrada que é óbvia nas minhas últimas escolhas, para não ser escrava delas como minha mãe foi, pra não estar inconsciente delas como a maioria dos homens está. e eu comprei as tais camisinhas. numa promoção louca da Pacheco que dizia nas entrelinhas "esteja duplamente seguro" com uma morena de dentes brancos segurando uma caixa de pílulas e um pacote de uvas em formato de camisinhas.
eu estava olhando para os seus dentes quando o caixa que me atendia pareceu de súbito ignorar o que vinha chamando a atenção dele a mim até então. e então talvez não estivesse interessado no que eu estava fazendo, talvez fosse algo no meu rosto, uma espinha...
ele provavelmente estava só me olhando e lembrando de todas as outras mulheres que compram suas promoções naquele dia, eu era como todas as outras, queria estar duplamente protegida e não pagar uma consulta no ginecologista (coisa que eu devia ter feito todas as outras vezes), antes que tivesse de fugir de novo de uma dúvida infátigavel, pela quarta vez naquele ano embrionário...

e neste domingo, como em outros domingos ou sábados, ou sextas ou dias de feira, fugindo de tudo o que tenho de fazer, e todas as responsabilidades que estar em 3D nos "obriga" a ter, para seguirmos nosso caminho, para aprender com o que nos aparece para viver, cuidar da sua família embora você sinta que não consiga, cuidar dos seus amigos, enquanto eles queiram, e cuidar de si mesmo principalmente quando outra parte de você não quiser, assuma os riscos, eu digo pros outros, pois é desse jeito que digo pra mim, não fuja do seu quarto, do seu Estado, dos compromissos acertados sobre os seus projetos, stick to it, e faça com intenção! fugir não arruma as coisas, as mantém bagunçadas dentro ou por fora, e por fora pouco importa, pois como limpamos nossa casa acaba que nos mostra o que viemos buscando nos outros... e viemos buscando muito mais que apenas nos auto-desculpar caso algo dê errado!
e apesar dessa busca obstinada para saber de nós e dos nossos desejos, pelo eternamente descontente anseio de nos conhecer totalmente, apesar disto, sabotamos o plano-mestre para que não haja chance de que ele se sabote sozinho, nos livramos do peso de não fazer agora o que devíamos estar fazendo e deslizamos estrategicamente nossa atenção a um ponto outro qualquer que não precisa da nossa atenção, como nossos compromissos, para que quando a tragédia se abata possamos nos perdoar nos eximir de culpa pois somos dispersos, pois somos livres para fazermos o que quisermos, pular de grupo em grupo, se ater ao colar e não às miçangas, pois somos livres para não fazermos o que precisamos fazer. isso é tudo uma farsa. um escape pra que nos sintamos menos covardes quando encararmos o nosso fracasso, pra que não pareçamos mais levianos do que fomos, para parecermos ao invés disso soberanos de nossas próprias personalidades, nós não estamos enlouquecendo, só estamos conscientemente optando pela loucura a cada dia que nos recusamos a olhar para o que viemos fazendo.


ps: e eu só jogo isso tudo pra vocês para não ter a sensação de estar lidando com tudo sozinha...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

a epopéia da reação alérgica numa segunda de manhã

a minha história de hoje começa assim... bem, na verdade ela começa antes de hoje, ela começa com eu voltando 4:50 da manhã pra casa tendo latente em mente que acordaria as 8 pra encontrar minha futura chefa no espaço onde vou trabalhar.
bom, 5 da manhã, 5:30 da manhã, nada do sono vir, eu tava inquieta. por uma hora eu até cheguei a cochilar, mas ainda assim um sono muito superficial, totalmente condicionado a dormir o mínimo.
7 hrs decidi levantar, hj não cheguei nem a sonhar pra ter idéia do quão leve não foi o cochilo.
bem, tudo bem então. vou viajar amanhã terça-feira e até então não tinha nada arrumado, comecei a agrupar os vestidos, as coisas de banho e tudo o mais... quando dá 8 hrs eu ponho os pães no forno e vou tomar banho.

quem me viu nos últimos 2 dias sabe que eu estou TOSTADA de sol, e minha pele está anormalmente sensível (as ditas pessoas mal podiam me encostar!). qdo saí do banho minhagente, fui lá toda prosa colocar o hidratante da victoria's secret que parece hidratar a pele bem mais que os outros que rolam no meu banheiro...
então tá, quando passou uns 5 minutos meu peito começou a ARDER, ARDER, e COÇAREARDERECOÇAR, como se uma abelha ou uma vespa tivesse me picado bem no meio dos peito só de sacanage. nossa, até eu mobilizar minha mãe e meu pai pra ir pro hospital, minha pele já tava em chaaaamas, e eu tava esganiçada chorando e gritando e querendo arrancar minha pele fora e me coçando, enfim, um verdadeiro caos dermato-psicológico...

mas isso aqui, eu adianto agora, é uma história sobre estar irritado, ou desconfortável, ou ranheta. ou qualquer coisa assim...
então o leitor deve imaginar que não é nem o começo! e imaginou certo se foi o caso, pq quando eu chego no Pronto Socorro mais vazio e underground de botafogo, tem 10 (DEZ) pessoas na frente. como esse era pra ser o hospital mais desconhecido, supus que o Copa D'Or e outros estariam ainda mais cheios (até pq findeano é danado pra dar merda!), tive que esperar né...

só que daí tem aquela história que os velhos tem prioridade, e nessas umas 4 senhoras em momentos diferentes entraram na frente de todos. nossa que raiva que dá! a velhinha toda sorridente, devia tá com uma dorzinha de cabeça, um enjôo aqui, uma nálsea suave, devia ter sonhado que estava grávida ou algo assim, e passou a frente de toooooda a sucursal de acidentados que mal cabiam em si, e dentro de suas dores, comportados mas todos expressando um mesmo inconformismo com aquelas senhoras pseudoadoentadas passando na frente.

só que reclamar disso perto do meu pai, dos velhos intocáveis (e oportunistas), é assinar um contrato pra ouvir A Voz da Verdade falando em alto e claro, defensora dos neurastênicos e dos reumáticos! sobre como o fato de eles serem velhos, e de a lei protegê-los encerra qualquer tipo de argumentação. e é claro, que sendo quem sou, eu ia ter que dar um discursinho pra pontuar aquela situação. fiquei reclamando que as leis são estúpidas porque são incondicionais e irrevogáveis, e não avaliam casos específicos, que esse é o problema da burocracia, que ela (e as leis tbm) são sempre caducas, e rígidas e descabidas! enfim... já tava puta! sei que pra aliviar o clima minha mãe resolveu fazer uma longa narrativa sobre o episódio do Law & Order de ontem de madrugada que a mulher matou o marido com 50 tiros nas costas, e que ele estuprava ela desde os 15 anos da moça, e td essa coisa que vc É CLARO queria ouvir detalhadamente enquanto espera a terceira velhinha cínicamente satisfeita passar na sua frente na sala de espera.

sabe quando vc dentro de si busca todas as orientações meditativas que o mundo te deu até então, vc escolhe conscientemente parar de absorver o blablablá ao seu redor numa tentativa desesperada de encontrar alguma paz de espírito? mas que ao mesmo tempo que vc se concentra nisso percebe que não está funcionando porque quanto mais vc tenta respirar, hmmm, aaaaah, hmmmm, aaaah, mais vc tem vontade de socar todo mundo a sua volta pq PORRA assim não dá, num tem paz nenhuma naquele lugar, nem pra fazer um pranayamazinho ali, em pé mesmo, eu me coçando toda, e ainda ouvindo agora piadas cabeludas sobre uma bicha insaciável na ilha deserta que achou uma lâmpada mágica e pediu pra ter uma rola gigante.

eu só queria ouvir meu nome ser chamado, assim, só isso. e "só isso" me levou 1h30, quando eu fui falar com o médico já tava com coceira no corpo inteiro, e com bolinhas brancas de alergia na pele.
aaah, esqueci de dizer que quando minha compressa de gelo (que tava aliviando a ardência insana no peito) ficou quente, minha mãe me comprou uma lata de coca-cola gelada pra ficar passando no peito por baixo da blusa. e todo mundo olhando, claro! enfim, isso foi só pra dar um zoom nessa parte vergonhosa da experiência.

tudo bem, essa etapa terminou. fui consultada, o médico era simpático, resolveu tudo com simplicidade. ponto.

ato 2.

na escada de entrada da Policlínica tinha uma senhora sentada com um poodle horroroso no colo, mas quem me conhece sabe que eu adoro bichos, principalmente os esquisitos (talvez por algum tipo de identificação). fiquei ali falando com a Pérola (a poodle com colar de pérolas), e depois desci.
primeiro passo fora da calçada o taxista do ponto ali em frente quase ranca o pé da minha mãe fora, assim, nada mais absurdo do que na frente de um Hospital né, mas tudo bem. sinal fecha. na segunda pista da Mão Inglesa vem um alucinado de rabo em pé numa mercedes vendo eu e meus pais no meio da rua, ele vai lá e queima o sinal a despeito dos gestos pouco cortezes que meu pai fez contra o vidro do carro.

e o mais engraçado é que quanto mais você se irrita mais o espetáculo do absurdo se mostra. a raiva é como um circuito fechado que se auto-gere, quanto mais irritado você fica, mais coisas inumanamente irritantes acontecem. é fato!

chego em casa ainda tenho que voltar ao calor infernal da rua comprar os remédios com o peito todo me coçando e uma compressa de gelo embaixo da blusa. claro que tinha que ser meio-dia né a hora que eu saí de casa pra fazer isso... eu esqueci de olhar o relógio e previsivelmente, o pior aconteceu.
a visconde de caravelas abarrotaaada, real grandeza idem. aqueles grupos de 20 superamigos do trabalho, andando quase de mão dada numa rua minúscula. adoro!
e as mulheres, que geralmente são 3x mais desligadas e prezam muito por sua fofocada da hora do intervalo, mal notam que existem outros seres que tentam gentilmente passar pela corrente-da-amizade na calçada.
acho que a única sorte que eu dei hoje foi encontrar o Spoleto aberto e sem fila.
em compensação minha salada tava mirrada e ao escrever esse texto gigantesco já preciso de mais energia do que consumi.

vou me matar lá na sala e já volto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Congênito, Luiz Melodia

Se a gente falasse menos
Talvez compreendesse mais
Teatro, boate, cinema
Qualquer prazer não satisfaz
Palavra, figura de espanto
Quanto na terra tento descansar...

Mas o tudo que se tem
Não representa nada
Tá na cara
Que o cara tem seu automóvel
E tudo que se tem
Não representa tudo

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

um trecho-texto pós-utópico

reações proporcionais são farsas!
como podes tomar como grandioso, imponente, o que digo com grandiloqüência, estando latente no meu ego o pulsar fálico da verdade, como podes tu chamar isso de promessa? como podem levar a sério alguém que se sente e por aquele momento SABE-se detentor de algum breve suspiro do Real?
falamos grande porque não sabemos de nada, porque ignoramos, porque somos em verdade muito pequenos, porque nós e nossos paradigmas nunca serão suficientes pra expurgar o oco compartilhado da existência. fazemos discursos cheios de pompa porque nossas pernas tremem quando questionamos a credibilidade (e a finalidade) da nossa forma de pensar. e em providencial atitude de construir descartáveis Torres, - arranhacéus tão longelíneos que espreguiçam-se lá longe no horizonte e quase que sem saber tentam arranhar, apreender os céus em suas garras afiadas de certezas, para obter um pouco da clareza que se derrama do estado de Deva! - queremos nem que sejam as nuvens, para matéria em nossa vaguidão, nem que seja o vento, a Bússola para o nosso andar a esmo...
e ainda assim insistes em negar a vacuidade dos nossos atos?
se digo que amo, se te transcrevo versos enxarcados ébrios, não vai aceitá-los por que são deveras sérios?
não existe seriedade nem mesmo na esfera racional, reduto da impecabilidade e da mentira. como pode o sentir caber dentro da proporcionalidade injustificável? sentir é exagerado, o Eu é um dramático, coitado, que não entendeu que viver não é digno de estatutos.
viver é tão indigno quanto mendigar.
todos se levam tão em conta, pensam suas frases e gestos com tanta importância e perícia, se dedicam tanto a escultura de suas imagens que já não sabem mais se são o que suas mãos produzem, ou se são ao contrário, o barro inerte e mofado, esperando amorfo para ser moldado?

o Ser é uma fraude.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

do tédio ao desespero (em duas doses)

corro os olhos desinteressados pelas vitrines, me sinto como se estivesse em são paulo, olhando vazio para o vazio que é refratado nas calçadas. não desejo comprar, nem comer, e passar nessa rua me dá sempre a impressão de estar imersa em um querer abstrato de coisa ainda não inventada.
penso em comer sem querer nem pensar em comida, me pego olhando longamente para dois caras de mochila, de costas para a avenida, em quem nada havia para se reparar. percebo traços da vida enquanto ando, presto atenção em suas veias e vielas que não despertam em mim nenhuma estima; e é dessa falta de interesse que se desvela meu distanciamento - este, do qual falo desde que as palavras me foram apresentadas...
esse tédio que eu sinto, vem de mim, do meu cansaço sem razão, ou o que eu sinto exala do imobiliário dessa cidade, desses tantos espelhos espalhados pra tudo que é lado? não sei pra quê tantos espelhos, tanto vidro transparente pra um monte de gente que não agüenta se ver por dentro. até meus olhos, convenientemente polarizados, andam vestindo-se de fumê pelo simples fato de não querer ver, o que todas essas lojas se esfregam para mostrar. até minha boca que vive a articular, se cala ao sentir o nada, dolorido e complascente, a se retratar.
não sei se é de hoje que sei-me desse jeito, mas caminho sozinho ouvindo as vozes nas ruas escoar feito esgoto para os bueiros, pelos becos
e cruzamentos engarrafados, na minha neuroquímica.
decido, sento no bar.
peço um gim duplo, e recomendo ao garçom, antes que me venha à cobrar, que hoje só quero saber de esquecer, e que nem fale comigo se for para lembrar!

Quem sou eu