...No princípio era o Verbo...

sábado, 14 de agosto de 2010

Religare a Si

"Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito todas. Bebo água de todo rio...
Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora!, cantando hinos belos deles.
Tudo me quieta e me suspende. Qualquer sombrinha me refresca..."
Grande Sertão:Veredas, Guimarães Rosa



"...Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar..."

Se eu quiser falar com Deus, Gilberto Gil



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

o silêncio não incomoda mais
nem as vozes
dentro e fora de mim
não são mais ruídos.
Tudo está preenchido do Sagrado
e sendo assim,
não há um milímetro de algo
que possa ser considerado ruim.

domingo, 8 de agosto de 2010

Um brinde à Vida Eterna!

- agora? - ela quis perguntar, de impulso, de costume, e assim o fez.

- sim, agora... - ele coçou a cuca, carinhou a barba e acrescentou, com o carisma e a tranquilidade de quem olha para uma velha situação conhecida. - agora. e antes também...

- agora? agora eu sou um eu que fala um pooouco menos sobre si.
mas você sabe o quanto amoodeio definições, não sabe? claro que sabe!
eu odeio a truculência da nomenclatura, João!!! mas me delicio imensamente ao enovelar-me em seus encantos... como um vício qualquer sabe? como cheiro de cigarro na roupa!
sabes que não posso nem dizer esse sentimento?! não posso! sem que ele me invada a espinha e rasgue o véu do mundo dos pensamentos! deslumbro-me com tantos potes em que podem caber a minha idéia, tantas caixas, entalhadas, abertas, fechadas, de aço, coloridas, de cortiça! tantas palavras, tantos conceitos e ainda assim, tantas sobras...!

...

fez-se um silêncio. um silêncio comum ao cessar das grandes tempestades. observe-o, principalmente em cidades ou vilas, verás quão maior é esta percepção do que mero lapso sonoro. o rosto da menina, iluminado pela chama tremulante da vela, os olhos fechados, tinha a expressão aliviada de quem ostenta em Glória, seu coração aberto. uma Lótus em pétalas, dentro dela via-se germinar um ponto dourado de luz, e à sua volta raios rosados irradiavam de seu Corpo Áurico.

quando o Amor se abate, um corpo torna-se a medida irrisória do que é pouco. o Amor quer também o outro.

a mentira mais mal contada do mundo é que cegos não vêem. bom, em geral até faz sentido, mas este cego aqui, esse tal de João, podia testemunhar algo que nunca antes tinha sido mirado por um ser humano encarnado: um corpo. jovem / se enchendo de Amor, Divino - coisa que enxergantes jamais poderiam ver com suas maquininhas oculares superestimadas! era incrível a cena, vista de cima: descia uma luz tão forte do Reino dos Céus, que os Mestres espirituais que orientavam nosso grupo nos pediram para afastarmo-nos um pouco. algo em minha cabeça dizia que havia de ter algo com a interferência da nossa energia imperfeita na comunicação que se dava entre os Planos Superiores e a jovem menina.

tudo se harmonizava à volta deles. de cima conseguíamos ver as moléculas de Amor, organizando todo o Caos energético vindo do vilarejo que circundava a cabana pobremente iluminada. aos olhos da matéria, a única luz visível pelo lado de fora era encontrada por entre as frestas do eucalipto e no entanto, sob a visão do espírito, o que antes era apenas o usual breu da floresta, transformava-se num carnaval inacreditável de seres - de todas feições e feitios - e Luzes cambiantes, rondando em torno dos dois.

se nos suspendêsse-nos até o topo do globo terrestre, ainda assim veríamos a Luz dourada irradiada por aquela conversa tão insuspeitadamente radiante. e como essa fagulha, muitas muitas outras, espalhadas pelo Planeta. produzidas por situações tão aparentemente ordinárias que vocês ririam de mim caso as descrevesse! essas fagulhas são como rimas, ocasos de harmonia, choques de placas tectônicas humanas cuja fonte pode ser um beijo saudoso, uma peça de arte feita em conjuntos, qualquer coisa. acontece! vocês verão... as almas se impactam, por um momento se aparelham e quando acontece, produzem luz! é difícil de acreditar, e eu também duvidaria, mas os homens mais admiráveis dessa Terra, mesmo os mais sábios, apavoraram-se com a infinidade de mistérios envolvendo o Grande Espírito com que se depararam ao desligarem-se da matéria.

João foi ao quarto, dividido da cozinha por uma simples canga presa ao batente, voltando em pouco tempo com seu atabaque.
Laís sorria, com os olhos semi-cerrados - expressão tão comum ao estado de espírito transcendente! - e com as mãos inconscientemente impostas em Granthi mudrá, aguardava em profunda paz seu companheiro voltar.

ao sentar-se, o senhor, que não era seu avô nem nada mas podia ter sido, tomou uma respiração prolongada e suspirou as seguintes palavras: defina-se agora. não defina a etapa personal da sua vida, pois isto todos podem deduzir.
quando falo de você, falo de uma instância mais especial mais distinta de você. uma parte de você que por acaso te sussurrou todas essas coisas bonitas e tocantes que ouvistes enquanto estavas de olhos fechados...

mais uma pausa se fez, e a menina tornou-se levemente apreensiva pelo que ela considerou, erradamente, um puxão-de-orelha. esperou o velho então prosseguir...

- descreva de alguma forma, não importa qual, o insight que acabou de ter sobre si mesma, Laís. não se esconda! todos nós já passamos pela percepção infâme que é a de sermos menores do que o nosso ego diz que somos! vamos, descontraia-se!

ela sorriu, despertando em si, novamente, a doçura e o abandono que a embalavam instantes antes. respirou fundo, e prendeu a respiração lá dentro dos pulmões, enquanto pensava sobre o que o velho tinha acabado de a incumbir.
enquanto ela tomava seus segundos para refletir, velho João tocava suavemente seu tambor, e este ressoava apenas em torno da cabana, não invadia o sono dos vizinhos, nem a paz dos ainda despertos. era incrível que mãos tão antigas pudessem precisar a intensidade exata que lhes cabia àquela hora da noite!
o velho João era conhecido no vilarejo por ser um daqueles sujeitos que jamais deixam rastros ou zumbidos por onde passam...

- acho que sou... ou somos, né? - encorajando-se, Laís continuou com sua usual riqueza gestual ao descrever a si mesma e aos outros para o velho senhor...
- uma escada! ou uma porta para o Nada, para o Reino do Desconhecido. e cada um de nós, é uma escada ou uma porta bem diferentes uma das outras, sabe? tem umas que são tão largas que 3 obesos poderiam subir nela sem esbarrar seus pneuzinhos! tem outras que são tão estreitas que só comportam a si mesmas e olhe lá! estas são aquelas escadas de plástico que estão sempre rangendo e prestes a desmontar! e uma não é melhor, nem pior que a outra por suas características, cada uma acessa o Poder da forma como lhe cabe, da forma como escolheu pra si, ao longo de tooodas as suas vidas anteriores...
não é assim, João?? - inquiriu o velho com o olhar flamejante tão comum aos filhos e filhas de Iansã. este olhar deu ao senhor o direito de uma gargalhada que sumia gradualmente, uma gargalhada espaçada, tranquila, e limpíssima! como se os pulmões daquele ancião não tivessem nunca sido tocados por qualquer impureza!


- é assim sim, Laís, é assim... - João deu os últimos toques no atabaque, e ao pronunciar as derradeiras palavras, com a mesma maciez que João chegara à Vida, foi com esta que João saíra dela. fechou os olhos pela última vez, e tranquilamente fez a passagem.

domingo, 13 de junho de 2010

pedacinhos de reflexões

* eu tento adotar a postura dele de macheza perante a vida, de não vacilação, totalmente desavisada de que essa postura não é possível em absoluto. a própria existência de uma capa de não-hesitação, não-receio, não-erro revela a raiz dessa postura: o desamor, a decepção, e a promessa de não sofrer mais. mas com pouca idade você não sabe disso, e muito embora tenha bastante autonomia de pensamento, algo muito mais misterioso que um vínculo co-sangüíneo estabelece uma relação profunda entre pai-e-filho, e você admira eles, admira sua experiência. se crianças não considerassem, nem que seja minimamente, a proeminência de seus pais e dos mais velhos, dificilmente recorreriam a seus colos, e às suas respostas. e eu acredito que coloquei as minhas respostas mais subjetivas nas mãos da pessoa que menos conseguia lidar com incertezas e sofrimento:
- daddieeeeee......

e eu admirava o proceder dele pois que tinha um ar firme, cizudo, de quem sempre sabe o que está fazendo, mesmo que esteja profundamente distraído com tudo. tão distraído que talvez fosse necessário que um Boing caísse sobre mim pra que ele pudesse olhar pro meu rosto durante 5 minutos, sem desviá-los gentilmente pro jogo de golfe na televisão.
então foi nas mãos vacilantes, mas extremamente preocupadas, que as minhas preocupações caíam. era nas soluções de meu pai que minhas indagações descansariam (ou não descansariam jamais! - começo a perceber agora).
de toda forma, adotei seu estilo de vida, sua postura física nem tanto, nunca consegui a musculatura disciplinada e aristocrática de papai, e secretamente culpava a genética sentimentalóide e muscularmente insípida de minha mãe. foi deste homem em quem me inspirei pra construir esta mulher que escreve pra ninguém neste exato momento em que essas letras pipocam na tela ao meu comando... e neste jogo que escolhi pra jogar, bem, digamos que eu tenha tido que baixar um aplicativo para rodar esse jogo...... esse aplicativo chama-se "self Denial", e dentro dele posso rodar diversos jogos na verdade, a impecabilidade, a inacessibilidade, a supremacia, uma moça de Qi elevado, um dda, uma criança, uma adulta c/ suas responsabilidades, ou uma pessoa de saúde frágil,... é o jogo de ser quem você quiser ser. a única coisa que você tem que fazer é considerar que não precisa mais das suas "más" qualidades, que elas estão te atravancando, e que elas não te representam, não representam o Novo Você que está a surgir quando você finalmente clica "baixar"!
é preciso Força pra sobreviver a essa aventura, a esse romance que a gente ingressa quando deseja esquecer quem somos! é preciso Força pra viver! eu acreditei demais na força! e hoje digo com total tranquilidade de consciência que acreditar ser forte NUNCA me fez sentir menos fraca. esse personagem que eu escolhi representar tinha tudo aquilo que eu nunca vi em mim. em mim sobrava apenas uma docilidade que não cabia, uma permissividade incompreensível, perturbada, algo simplesmente errado de sentir, porque infringia dor! do alto da minha arrogância, selando a senda da auto-ilusão, via apenas uma ingenuidade a ser aplacada, eu sobreviveria à ela e seria mais forte que todos os fortes à minha volta!
seria distante, nebulosa, e assim, deixaria de sofrer! algo suavemente diferente do que intuí que meu pai vinha fazendo (este cultivar da "força" - ou do auto-engano) e que hoje tenho a graça de ver ser desconstruída em mim e nele também.

quando vejo meu pai hoje, perdoando seus próprios equívocos, suas posturas que estavam enganadas, quando vejo meu pai - bem aos pouquinhos - dar férias ao seu implacável guerreiro interior, eu respiro junto e novo que nem ele! aos poucos Luiz vai acalmando esse guerreiro dizendo que ele foi muito útil enquanto ainda morava em cascadura, ou em pernambuco, o guerreiro brigão replica dizendo que pode vencer mais uma batalha sem esforço! esses pedaços da gente tem vida própria, meu povo, e eles não querem morrer não, eles querem te defender do mundo injusto! mas é preciso que você os deixe ir... porque você já viu que não há nada do que se defender, e não há nada que você não deseje saber sobre quem você é, ou sobre quem pode ser... e é preciso que não deseje brigar mais afinal, em total e sóbria consciência de alma. porque já nos machucamos sem lutar contra as coisas, e o ódio envenena nossa paz de espírito que era pra ser inviolável. não queremos mais porque podemos não querer mais, porque somos autores e não vítimas de quem nós somos.

enquanto meu pai se opera, vejo que no Hall de mim, começo a abandonar a armadura mais e mais, e me permito à moleza do corpo, me conforto na vulnerabilidade da carne que vibra com os sons e com o vento, me acostumo a sinuosidade e franqueza do corpo cru com curvas e deslizes e retas e prolongamentos pontilhados, sutis, energéticos. ninguém precisa entender que não estou mais lutando contra a vida, eu mesma estou entendendo isso, e assim consigo concluir, tranquila, que estar em paz é a verdadeira salvação prometida.
se redimir é amar (e não crucificar) nossos pequenos pecados; enquanto se tornar pacífico é aprender amar os pecados também nos outros.

ps intertextual: o tal nazareno viveu sua vida em respeito e auto-abandono, em amor e em devoção cega ao Amor. mas tudo o quê o mundo conseguiu apreender de sua vida-obra foi sua Morte e sua cruz, seu sangue e seu corpo. nada mais.
as religiões que criamos, os deuses que criamos, são formas-pensamento que usamos para aplacar nossas dores. a religião deveria servir a te reconectar com Si, te fazer crescer em júbilo e em Sabedoria. não em crença, em dúvida, em endagação, em ódio, em ritual, em auto-punição, etc, etc


* quando admiramos algo que não vemos em nós, mas nos identificamos com aquilo mesmo assim, essa admiração é um indício, uma pista-alerta, uma ligação aos Bombeiros para que aquela nossa característica de alma nos seja novamente apresentada. notei que há uns anos, conforme secretamente ia azedando e envelhecendo meus conceitos, era crescente minha admiração pelos meus amigos-criança, pelos indivíduos que simplesmente eram a despeito do julgamento dos outros, que simplesmente não ligavam pra violência das pessoas e suas opiniões, eles simplesmente desviavam suas atenções das minhas críticas e tornavam a coisa toda de viver parecendo uma brincadeira de novo. esse povo do circo sem muita auto-crítica, sempre me impressionou. e eu, me vendo apenas como construção e não como construtora, reparei que admirava tanto aquilo porque aquela qualidade certamente não constava na minha escassa lista. e pus-me a admirar agora, com certa dose de melancolia, como quem finalmente reconhece que "nunca será diferente disso que está sendo entediantemente agora".
hoje, chafurdando em todo o lixo de self-missunderstanding, coisas que eu quis entulhar sem discriminar o que aquilo dizia sobre mim, e ENFINS, percebi que o que eu admirava nos outros, eu realmente havia PERDIDO, e isso significava dizer objetivamente que aquilo já HAVIA EXISTIDO em mim de maneira muito latente. daí depois de concluir isso me vêm a cabeça que essa ingenuidade linda que eu vejo hoje foi a "docilidade idiótica" da infância, que eu passei todo esse tempo tentando negar.
a alma grita quando se depara com um pedaço seu. ela quase rasga nosso corpo, chama atenção através do nosso pessimismo (nós e essa inclinação à auto-piedade) à característica que precisa ser resgatada! e você fica como "escravo" de você mesmo, masoquista, medindo o tamanho da dor que é não ser mais assim... ao invés de escutar a voz tímida que existe meio castrada dentro de você que diz que talvez você tenha deixado algumas decepções ao relento, descuidadamente. e que sem cuidado consigo é impossível cultivar auto-amor.

* engraçado como a construção do que chamamos de personalidade costuma ser uma série desenfreada de cagadas oculta(da)s.

* perceba o movimento soufofa e sofro por isso se transformar em sou fria e admiro quem é fofo. perceba o quanto é PURO e demente massacre acreditar que somos limitados pelo que vivemos. o que vivemos nos limita/define na medida que desconhecemos o Quê de fato vivemos, o quê sentíamos enquanto estávamos vivendo, o que queríamos na época estar vivendo, o que gostaríamos de mudar em nós mesmos, etc etc etc nós somos definidos pelos nossos traumas (karmas?) na medida em que tememos não olhar para a causa deles.
uma vez dissolvidos, podemos escolher abrir outras portas, conjugar outros verbos, brincar de ser bobo, escolher diferente. fazer escolhas que revelem outro padrão de comportamento e interesses.
viver passa a ser escolha consciente, não existem vítimas, nem algozes, só consciências vivendo a confusão em dízima periódica, consciências como eu fui, que apenas observam as ações automáticas e repetidas do ator lá ao longe... consciências que percebem tudo do backstage, mas que não são requisitadas pras funções personais do day-by-day.

queira conhecer-te. sem receios. e conhecerás aos Deuses e ao Universo =)

CD: meditação sons da natureza (urbana)

ouço um som alto de cigarras,
tardo,
um pouco escuto, no escuro do meu quarto,
cessa o barulho e quieto,
descubro
não era bicho, era a sirene do carro!

domingo, 30 de maio de 2010

to remember

i shall not perform, but experience
i shall not own, but belong
i shall not speak, but watch close and silent
i shall not walk, but rise
i shall not hear but listen here and beyond
i shall look above and around
i shall be in Love and breath understanding
i shall see all men as consciousness entities,
learning men
and i shall see them
as i See my own holy being.



ps: não porque é mais bonito ser assim, mas porque é menos despendioso e mais rico.

sábado, 29 de maio de 2010

maravilidades

...the Greatest Artist...





still, there are those who get to experience the most terrific fabulous and undeveloped events by the Self experience on psychedelic plants or by entering unwary in altered states of consciousness fallin asleep; and yet they go undisturbed by the mad beauty inehent in every sacred piece of Existence, It has all been made of.
there are those who realize the comprehensible, over the unspeakable, thrills in especulation but not in perceiving, takes the described for the description, etc, etc...



deserto de Utah, estados unidos. foto tirada por Wally Patcholka com uma lente 50mm e 30 segundos de exposição. a iluminação de dentro da caverna provém da lua cheia.


chamada "O Olho de Deus", nebulosa Helix, apenas a 650 anos-luz daqui. ;)


nebulosa da Mariposa




nebulosa trífida. ps: se liga na lesminha de antenas, verde, no canto inferior esquerdo.

Quem sou eu