...No princípio era o Verbo...

domingo, 20 de janeiro de 2013

deCEPe


A versão reduzida é pior que a versão curta. Sabes (se) a extensão daquilo que amas. Sabes quanto dura. Se vacila, se arde, se pulula.
Conheces cada grão. Que esquisita doença de mulher, saber das coisas sem saber dizer metade... Sua intuição é uma viagem, sua expectativa um disparate. Não há nada que sirva no mundo cego e de má vontade de alguns homens.  É impressionante, você sabe que ele é mais do que aquilo que insiste em ser. A dissimulação masculina é, ainda, mais cruel porque não é reconhecida.

E você sabe, mais uma vez... Sabe que existe a profundidade, a dúvida, quando não observada – rapidamente substituída, ao ser acordada – por algo de valor estreito e indiferente.
Por que tanto se desfaz, tão rapidamente, num saque ligeiro, às coisas que amamos?

diferença


Doer não dói. Pinica. Formiga. Sicatriza, logo! Que vira, marca, que se camufla, lisa, na epiderme, e fica. 

Mas doer não dói.
Pinica.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Do texto à taça e de volta ao texto


a produção nos últimos meses anda menos caudalosa, menos palavrífera, menos querente
eu estava lendo...
o texto mais preciso, mais pleno, mais sentido
vivo tempos de estranho alinhamento
implícito cetro no ordenamento dos astros e constelações de arquétipos
meu céu se move cada vez mais povoado de múltiplo e conciso
significado
os sinais prolixos que a vida me enviava
hoje são códigos instantaneamente compreendidos,
logo que são gerados


crescer também é isso, quero dizer a vocês
capturar com destreza a essência das coisas
querê-las menos óbvias, aceitar-lhes nos seus contornos próprios
ver a beleza que não vem do ideal, mas daquilo que é
crescer também é
uma situação que não rima, e a delícia do simples que não gosta de ser dita
nem muito menos nomeada

menos glamour e mais alegria,
são os votos que meu coração faria

Feliz Natal, mundo!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PINA


(trabalho de decifrologia do que foi escrito na sala do cinema (com as luzes evidentemente apagadas) num filme 3d)


Uma obra em que o silêncio e o tempo viram elementos cênicos,
os personagens são peões das pulsões, que representam

A voz é vestida de gesto, corpos nus sob transparências

Busca pelo conforto, a crise na aparência

Consciência do contexto, que nega o desejo e o delírio
a pequena, e notável,
necessidade de ordem, e norma
perante o abismo inominável

Descontinuidade, balanço, suspensão, convulsões, magnetismo,
força, intensidade, paralisia

(Cultura) Alguém que corrige os homens; espectadores e produtores do delírio "felissíssimo", sem leveza. o Jogo.

Estudo delicado de fotografia e cenografia.

Amparo, sustentação, equilíbrio,
coalisão, compensação

(Externas) Dançam enquanto a vida acontece...

Bailarinas corrigem a direção ingênua de sua fisiologia, de seus desejos, inadequados

Gestos que abrem espaço, inauguram o vazio e a saída
dão idéias, ventilam, expurgam, apalpam, escavam e poupam

Velocidade
Anseio que aceita as condições impostas para continuar buscando o impossível; e o desejo de descanso, concorrendo para tentar garantir a paz.

sábado, 18 de agosto de 2012

sentir


câmara oculta, no peito, desarticulada dos braços
não impede a luz de entrar, nem convida
côncava, apenas está

máquina de transformar
a miragem das maneiras mentais de dizer
dança sem mover-se, sentir
é um jeito de permanecer

o felino farejando o vento
fecha os olhos para crer melhor
buscando conhecer o ar
e saber, o sabor do instante, salivar
não se endaga e não se engana
o felino, traga a existência num sopro
e num sopro,
sentindo...
faz toda a Terra vibrar

sentir, a flecha certeira
cortando o espaço em fiapos
arqueia mesmo o mais rígido sentido
sentir, a corda estendida
vira laço

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

povoar.me


Quero afirmar meu tempo à revelia
e dentro
e independentemente de
/do tempo do mundo

e dizer a verdade + que sincera
e ser verdadeira à todo mistério
ser coerente à minha maneira
singela
de ser nada sério e
poço fundo
s/ perder o critério

mistério no espaço


um lugar no pensamento vago
longe no hotel presente, com endereço e tudo mais
cadastrado no gps
alugar um imóvel que ainda não foi construído pra um casal de
turistas,
ou um imóvel que está sendo sonhado agora, neste instante, um
imóvel que já foi vendido (polêmico (e ilegal!))

estar, mas não querer estar, e simplesmente sentir como se não estivesse
mas sofrendo os abalos sísmicos conscienciais de quem está, pronta e definidamente,
cercada daquilo que não estaria nem ali - caso tivesse escolha - mas não tinha.

quando eu saio de mim, o que fica em mim?
o que sai de mim e chega em você, quando eu falo, é o mesmo que estava dentro de mim antes de abrir a boca? ou ao abrir a boca, estrago?
o risco de extravio é a razão do anonimato. engulo as idéias todas de volta, antes que saltem mundo à fora, e devoro-las-todas. digo-las que o mundo aí fora vai degolá-las antes mesmo que dêem seu primeiro
suspiro. e respiro. e acalmo-las todas, pra que sintam que dentro de mim existe um lugar pra elas, pra que eu saiba que existe um lugar pra mim aonde vivo, um lugar invisível, com endereço e cep, cadastrado em lugar nenhum.

a vida mobiliza meus nervos
e eu às vezes esqueço que moro aqui.

Quem sou eu