...No princípio era o Verbo...

domingo, 30 de maio de 2021

Posses

Só se entrega quem se tem, quem se possui
Só pode se abrir quem é dono de si. 
Está em si para abrir; não está fora, distraído, olhando as modas...
Só se dá quem tem de si pra dar 
Quem não tem a si mesmo, não se dá 
Porque não está em Si, em primeiro lugar 
A liberdade é um exercício 

Adonar-se

Ornar-se de Si

E se adorar 

Mais notas vagas sobre amor


E assim...
O amor realmente não aprisiona
Não contém
Ele liberta
Ele faz crescer, superar
O amor vai buscar aonde não tem
Vai criar o que ainda não é
Confia
Acredita
É aberto
Se envolve
Tem coragem

O amor não é mesquinho
Receoso
Não guarda pra si
O amor tem pra dar
Tem pra vender, mas tem mais ainda pra compartilhar
O amor é para além
O amor é, sempre foi
O amor está em tudo o que prospera, viceja e faz brilhar
O amor é a propriedade e essência do que realmente existe e não é fantasia ou ilusão
O amor é fato, para além de toda e qualquer discussão

O amor é faro, é tato e audição
O amor é pele e o plasma azul da Criação

O amor é obra
É construção
É pau e pedra
É estrada, é rosa e também espinho
E é refrão
O amor é vivo
O amor é cristalino
O amor vibra
Na diversidade de cores do arco íris

O amor é isso
E aquilo
E não é nada disso
E é muito mais
Que tudo o que já  foi dito
Sobre ele

(31/05/2021)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Respeitar o tempo

Um passarinho me disse pra saber respeitar o tempo. Que o tempo tem graça, tem saber e tem magia. Que o tempo é um verdadeiro mestre; que vira e que mexe e que mostra o que há e o que é. Que o tempo é Pai e é professor, que ele diz sobre cada um dos seres que criou: seu ontem, hoje e o depois, porque os seres nascem, vivem, morrem no tempo que é todo Seu.

Consulte o tempo. Escute o que ele diz.

Tempo, nego véio, o mais antigo mistério que Orunmilá testemunhou, desfaz armadilha num jogo de corpo; ensina o caminho no passo da dança, no movimento vivo da ciranda; está no que gira e se transforma. A mudança é sua arte. Deixa fazer o que ele sabe... Dê um tempo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Natal no ano do apocalipse (2020)

Enquanto o mundo fora fala, esperneia, esbraveja

O mundo dentro, calma

O mundo dentro cala e escuta as notas que se desprendem do silêncio

menu do dia

A verdade
Servida com chá e biscoitos
Ou a frio 
É a refeição 
Ou o rito
Que nutre
E educa 
O meu espírito
Para ver mais além

sábado, 21 de novembro de 2020

Amor, quisera eu saber-te (mas nunca totalmente)

O amor
E  toda vã descrição do que ele seja

A borboleta que pousa leve e por vontade própria no seu ombro
E quando bem quer te arrodeia, te mostra uma paisagem longe
Porque quer, volta,
Sem nunca deixar de ser essa dança livre e autêntica e senhora de si por todo o tempo espaço
Ao seu redor e mais além

Tão indefinível, ao acaso, tão gratuito e poderoso
Como o trovão
Feito um parto
Quanto a luz do sol é tão ardente quando irrompe na aurora, quente
Quanto óleo da lamparina iluminando a madrugada no campo
Suavemente

E como um furacão
Impiedoso,
Sem perguntar se pode
Que aniquila primeiro
E indaga depois
Que arranca o telhado e descobre o oco da casa de quem mora
Descobre quem vive insone dentro da gente
Os medos, a fome de sabe se lá o que

O amor, como diz João Cabral de Melo Neto, vem e come todos os papéis onde escrevemos nossos nomes

É a força irredutível que devolve a vida ao pó
É o volume vivo e contínuo de água doce correndo e contido perfeitamente nas margens no Rio
Todo suprimento
Toda revolução

O amor é além de qualquer figura de linguagem
É anterior à palavra
Precede a imagem
Seu poder põe fogo na camisa por dentro
É a teima incendiária queimando mesmo nos peitos mais serenos
É a ideia subversiva
E a promessa do consolo eterno e do eterno perdão e aconchego

Amor, não me deixa nunca ver-te totalmente
Faz parte do meu fascínio te desejar
E não me ver livre nunca inteiramente de ti
Pois estás aonde olho
No chão em que meus pés se acomodam
Onde meu espírito desperta
Minha alma repousa e reencontra a direção 

Quem sou eu