...No princípio era o Verbo...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Natal no ano do apocalipse (2020)

Enquanto o mundo fora fala, esperneia, esbraveja

O mundo dentro, calma

O mundo dentro cala e escuta as notas que se desprendem do silêncio

menu do dia

A verdade
Servida com chá e biscoitos
Ou a frio 
É a refeição 
Ou o rito
Que nutre
E educa 
O meu espírito
Para ver mais além

sábado, 21 de novembro de 2020

Amor, quisera eu saber-te (mas nunca totalmente)

O amor
E  toda vã descrição do que ele seja

A borboleta que pousa leve e por vontade própria no seu ombro
E quando bem quer te arrodeia, te mostra uma paisagem longe
Porque quer, volta,
Sem nunca deixar de ser essa dança livre e autêntica e senhora de si por todo o tempo espaço
Ao seu redor e mais além

Tão indefinível, ao acaso, tão gratuito e poderoso
Como o trovão
Feito um parto
Quanto a luz do sol é tão ardente quando irrompe na aurora, quente
Quanto óleo da lamparina iluminando a madrugada no campo
Suavemente

E como um furacão
Impiedoso,
Sem perguntar se pode
Que aniquila primeiro
E indaga depois
Que arranca o telhado e descobre o oco da casa de quem mora
Descobre quem vive insone dentro da gente
Os medos, a fome de sabe se lá o que

O amor, como diz João Cabral de Melo Neto, vem e come todos os papéis onde escrevemos nossos nomes

É a força irredutível que devolve a vida ao pó
É o volume vivo e contínuo de água doce correndo e contido perfeitamente nas margens no Rio
Todo suprimento
Toda revolução

O amor é além de qualquer figura de linguagem
É anterior à palavra
Precede a imagem
Seu poder põe fogo na camisa por dentro
É a teima incendiária queimando mesmo nos peitos mais serenos
É a ideia subversiva
E a promessa do consolo eterno e do eterno perdão e aconchego

Amor, não me deixa nunca ver-te totalmente
Faz parte do meu fascínio te desejar
E não me ver livre nunca inteiramente de ti
Pois estás aonde olho
No chão em que meus pés se acomodam
Onde meu espírito desperta
Minha alma repousa e reencontra a direção 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Constelar

O primeiro bem estar
Vem de estar
Consigo

Bem de star
Contigo
É constelação   

domingo, 16 de agosto de 2020

gota

Entre o pouco e o muito,

o vivido

Viver não tem pressa, nem formato

predefinido

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Vênus retrô

Me recuso a morrer
Nos limites da aprovação do outro
Me recuso a morrer
Nas fronteiras clandestinas de suas expectativas
Me recuso a não ser
Com a integralidade do que sou e sinto
Não me dou às provas
a que me submetem os alheios
Me recuso a morrer no que se vê de mim
(que é espelho)

Sou para os meus próprios desígnios
Sou com minha própria força, potência e vulnerabilidades
Sou, e cresço para bem longe dos becos
Escuto a mim primeiro
Não tanto e não mais às vozes e burburinhos dos que pensam que conhecem
Sou e cuido do que sou
E é assim
Daqui pra frente
Amém

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Silencio

Um silêncio que me faz companhia
E que nenhuma palavra alarma
Nenhum som o denuncia
Silêncio que cohabita
Se avizinha das ideias
Põe cor nas alegorias
Um silêncio que anuncio
Silêncio
Secretamente entoado
Ao que não pode ser dito
Mas experienciado
Em silêncio
místico

Quem sou eu